O doomscrolling é o hábito de consumir notícias negativas por longos
períodos, quase sempre de forma automática. Para explicar o tema com base
técnica, a Unimed Campinas entrevistou a psicóloga Tatiana Thomaz Moreira
Bitteler, que analisou como esse comportamento aparece na rotina e por que pode
prejudicar a saúde mental.
O problema não está em acompanhar fatos importantes, mas em perder o
limite desse consumo. Quando a pessoa continua buscando atualizações mesmo com
angústia, medo ou cansaço, a informação deixa de orientar e passa a alimentar
tensão, alerta, ansiedade e esgotamento.
O QUE É DOOMSCROLLING?
O doomscrolling é o consumo repetitivo de conteúdos negativos,
alarmantes ou emocionalmente pesados em redes sociais, sites e aplicativos. Ele
se manifesta quando a pessoa segue rolando o feed, abrindo novas notícias e procurando
atualizações mesmo sem necessidade real.
A sequência de atualizações reforça a sensação de crise e pode manter o
cérebro em estado de alerta constante.
POR QUE É TÃO DIFÍCIL PARAR DE ROLAR O FEED DE NOTÍCIAS?
É difícil parar porque o cérebro pode interpretar a busca por informação
como uma forma de proteção. A pessoa sente que, se acompanhar tudo, estará mais
preparada para lidar com riscos, mudanças ou situações incertas.
Segundo Tatiana Thomaz Moreira Bitteler, esse comportamento também se
relaciona à tentativa de controle e à expectativa de alívio a cada nova
atualização. Como esse alívio costuma durar pouco, logo surge outra dúvida,
outro alerta ou outra notícia negativa, mantendo o ciclo ativo.
COMO SABER QUANDO O CONSUMO DE NOTÍCIAS PASSOU DO LIMITE?
O consumo passou do limite quando começa a gerar sofrimento ou
atrapalhar a rotina. Um sinal importante é perceber que existe vontade de
parar, mas a pessoa continua checando atualizações de maneira repetitiva.
Alguns indícios merecem atenção:
●
tempo
excessivo acompanhando atualizações;
●
dificuldade
para interromper o hábito;
●
irritação,
medo ou tristeza depois do consumo;
●
prejuízos
no sono, na concentração, no trabalho ou nos estudos.
COMO O DOOMSCROLLING AFETA A SAÚDE MENTAL?
O doomscrolling pode aumentar estresse, medo, irritabilidade, tristeza e
sensação de sobrecarga. Isso acontece porque o cérebro tende a priorizar
ameaças, e o ambiente digital amplia esse contato ao oferecer fluxo contínuo de
conteúdos intensos.
Como observa Tatiana Bitteler, a exposição contínua também pode
prejudicar osono, a concentração e o humor. Quando o consumo acontece antes de
dormir, o corpo pode permanecer em alerta. Para quem sente esse impacto,
aprender a organizar melhor o uso
de telas e cuidar da saúde mental ajuda a reduzir a sobrecarga.
QUAL É A DIFERENÇA ENTRE SE MANTER INFORMADO E ENTRAR EM CONSUMO COMPULSIVO?
Manter-se informado é buscar notícias com objetivo, limite de tempo e
fontes confiáveis. A pessoa entende o que precisa saber e consegue parar. Já o
consumo compulsivo aparece quando existe necessidade constante de verificar
atualizações, mesmo sem novidade relevante.
A diferença está no controle. Quando o hábito afeta humor, sono e
concentração, o consumo deixa de cumprir função informativa. Nessa fase, a
tentativa de controle vira parte do problema, porque a pessoa acompanha mais
notícias para se sentir segura, mas termina mais ansiosa.
REDES SOCIAIS E NOTIFICAÇÕES PODEM PIORAR ESSE COMPORTAMENTO?
Sim. Redes sociais e notificações podem piorar esse comportamento porque
estimulam permanência, urgência e resposta imediata. Esses recursos facilitam o
consumo contínuo sem percepção clara do tempo.
Também é comum que conteúdos de forte reação emocional apareçam com
frequência. Por isso, desativar notificações desnecessárias, limitar horários
de uso e criar momentos de pausa digital na
rotina ajudam a
reduzir o estímulo constante.
QUEM PODE ESTAR MAIS VULNERÁVEL AO DOOMSCROLLING?
Pessoas com ansiedade, em períodos de estresse intenso ou com histórico
de sofrimento emocional podem estar mais vulneráveis ao doomscrolling. Jovens e
adolescentes também exigem atenção quando usam redes sociais como fonte
frequente de informação.
Crises coletivas, como pandemias, guerras, desastres naturais ou
instabilidade política, aumentam a vulnerabilidade da população em geral.
Nesses períodos, acompanhar os efeitos das redes
sociais sobre o bem-estar emocional ajuda a reconhecer quando o uso pesa demais.
COMO CRIAR LIMITES MAIS SAUDÁVEIS NO DIA A DIA?
Criar limites saudáveis significa transformar o consumo de notícias em
uma escolha, não em impulso. O objetivo não é ignorar a realidade, mas se
informar sem comprometer descanso, foco e bem-estar.
Algumas medidas práticas ajudam:
●
definir
horários específicos para se informar;
●
evitar
notícias antes de dormir;
●
desativar
notificações em excesso;
●
alternar
tempo online com atividades offline.
Esses limites funcionam melhor quando são simples e possíveis de manter.
Trocar o celular por caminhada, leitura, música ou conversa presencial reduz a
exposição automática.
O QUE PODE AJUDAR A INTERROMPER O CICLO DE DOOMSCROLLING?
Interromper o ciclo exige perceber quando o consumo deixou de ser intencional.
Ao notar que está rolando o feed sem propósito, a pessoa pode bloquear a tela,
respirar, levantar ou mudar de atividade por alguns minutos.
Também ajuda limitar o tempo de aplicativos, retirar redes sociais da
tela inicial e evitar páginas que aumentam medo. Quando o corpo já mostra
tensão, irritação ou cansaço recorrente, entender os sinais de estresse na
rotina pode
complementar esse cuidado.
QUANDO VALE BUSCAR AJUDA PSICOLÓGICA?
Vale buscar ajuda psicológica quando o consumo de notícias prejudica
sono, humor, concentração, trabalho, estudos ou relacionamentos. Também é
importante procurar apoio quando medo, irritação, tristeza ou ansiedade ficam
frequentes e difíceis de controlar.
A psicoterapia pode ajudar a identificar gatilhos, reduzir
comportamentos automáticos e construir uma relação mais saudável com a
informação. Quando a pessoa sente que não consegue se desligar das
atualizações, permanece em alerta mesmo longe das telas ou percebe sofrimento
emocional crescente, esse cuidado passa a ser ainda mais importante.
Cuidar da saúde mental também envolve reconhecer quando algo deixou de
ser apenas um incômodo passageiro e começou a afetar a rotina. Se o
doomscrolling tem aumentado sua ansiedade, prejudicado seu descanso ou
dificultado sua concentração, veja também quando procurar um
psicólogo e entenda
os sinais de que pode ser hora de buscar apoio profissional.