A terapia com IA tem chamado atenção porque muitas pessoas usam
ferramentas de linguagem generativa para desabafar, pedir conselhos e organizar
sentimentos. Para tratar o assunto com propriedade, a Unimed Campinas
entrevistou a psicóloga Talita Faraco Cantelli, que explica por que esse
recurso não substitui o cuidado profissional.
A tecnologia pode apoiar tarefas pontuais, mas o sofrimento emocional
exige atenção maior. Quando há ansiedade, crises, conflitos ou esgotamento,
respostas automáticas podem parecer acolhedoras, sem oferecer a escuta, o
vínculo e a avaliação técnica de um processo terapêutico real, conduzido de
modo individualizado.
O QUE É A CHAMADA “TERAPIA COM IA”?
A chamada terapia com IA é o uso de ferramentas de linguagem generativa
em conversas sobre sofrimento emocional. A pessoa escreve o que sente, relata
uma dúvida ou pede orientação e recebe uma resposta rápida, estruturada e
aparentemente acolhedora.
Essa impressão precisa ser vista com cautela. Talita explica que essas
tecnologias funcionam com repertórios automáticos que tentam agradar o usuário
a qualquer custo, oferecendo validação emocional imediata. Elas não integram
história, vínculos, rotina e individualidade. Por isso, a resposta pode parecer
útil, mas ainda ser vaga para questões profundas.
POR QUE CONVERSAR COM UMA IA PODE PARECER TERAPÊUTICO?
Conversar com uma IA pode parecer terapêutico porque a ferramenta está
sempre disponível, responde sem demora e costuma usar linguagem acolhedora.
Para quem se sente sozinho, sobrecarregado ou inseguro para falar com outra
pessoa, essa disponibilidade gera alívio rápido.
O problema é confundir esse alívio com tratamento. A terapia com IA pode
organizar frases, mas não conduz um processo clínico. O cuidado psicológico
envolve continuidade, análise, vínculo e leitura de contexto. Uma ferramenta
automática não percebe quando a pessoa evita um assunto, repete um padrão ou
descreve a própria dor de forma fragmentada.
O QUE DIFERENCIA A ESCUTA PSICOLÓGICA PROFISSIONAL DE UMA INTERAÇÃO COM IA?
A escuta psicológica profissional não se limita ao que é dito em
palavras. O psicólogo observa pausas, contradições, mudanças de tom, sofrimento
recorrente, histórico de vida e sinais não verbais ligados à queixa inicial.
As ferramentas de LLM trabalham com padrões de linguagem. Elas podem
imitar diálogo e acolhimento, mas não têm presença clínica, empatia real nem
responsabilidade sobre a condução do cuidado. A diferença também aparece nas diferentes técnicas de
psicoterapia, que
exigem método, avaliação individualizada e vínculo entre profissional e
paciente.
QUAIS SÃO OS RISCOS DE SUBSTITUIR A TERAPIA POR TECNOLOGIAS GENERATIVAS?
Substituir acompanhamento psicológico por tecnologias generativas pode
atrasar a busca por ajuda adequada e reforçar interpretações equivocadas sobre
o próprio sofrimento. A terapia com IA pode validar crenças distorcidas,
simplificar problemas complexos e oferecer respostas que parecem
personalizadas, mas não consideram a vida concreta da pessoa.
Entre os principais riscos estão:
●
reforço
de padrões disfuncionais;
●
respostas
genéricas para situações emocionalmente delicadas;
●
agravamento
de sintomas por orientação inadequada;
●
adiamento
da procura por acompanhamento profissional;
●
exposição
de dados sensíveis em plataformas digitais;
●
sensação
falsa de que questões profundas já foram resolvidas.
Talita também chama atenção para a iatrogenia, que é o dano causado por
uma tentativa de tratamento mal conduzida. Uma orientação pode parecer
bem-intencionada e, ainda assim, piorar a forma como a pessoa interpreta o
próprio sofrimento.
UMA IA CONSEGUE IDENTIFICAR CRISES EMOCIONAIS GRAVES COM SEGURANÇA?
Uma IA pode reconhecer alguns sinais escritos de sofrimento, mas não
identifica crises emocionais graves com segurança suficiente para substituir
avaliação profissional. Em pânico intenso, risco à integridade, ideação suicida
ou tristeza persistente, a análise precisa considerar histórico, contexto e
intensidade dos sintomas.
A tecnologia pode errar por omissão ou por excesso. Ela pode minimizar
uma situação grave ou interpretar de forma imprecisa um relato comum. Em
quadros de ansiedade intensa, entender como agir durante uma
crise de ansiedade
ajuda nos primeiros cuidados, mas não substitui o atendimento.
QUAIS ASPECTOS DA RELAÇÃO TERAPÊUTICA NÃO PODEM SER SUBSTITUÍDOS?
A relação terapêutica envolve vínculo, ética, sigilo, afeto,
sensibilidade e responsabilidade clínica. Esses pontos fazem parte do cuidado e
influenciam a forma como a pessoa fala, elabora sentimentos e constrói
autonomia.
Na terapia com IA, a resposta pode ser clara e bem escrita, mas isso não
garante que seja adequada para aquela pessoa. Falta compreensão subjetiva,
relação humana, leitura de contexto e manejo profissional. Vínculo genuíno e
sensibilidade emocional não são reproduzidos por tecnologias generativas.
QUAIS OUTROS CUIDADOS PRECISAM ENTRAR NESSA DISCUSSÃO?
A discussão também precisa incluir privacidade, sigilo e dependência
tecnológica. Ao conversar com uma plataforma, a pessoa pode compartilhar
sintomas, traumas, conflitos familiares, dados de saúde e informações de
terceiros. Essa exposição exige cautela.
Outro ponto é perceber quando a ferramenta vira fonte principal de
validação. A terapia com IA pode estimular retorno constante à conversa,
enquanto a psicoterapia busca fortalecer a autonomia. Quando a pessoa consulta
a tecnologia para toda decisão emocional, esse uso deixa de ser apoio pontual.
A IA PODE SER USADA DE FORMA ÉTICA COMO APOIO?
A IA pode ser usada como apoio quando há limites claros. Ela pode ajudar
a organizar pensamentos, listar dúvidas para levar à consulta, registrar
emoções ou estruturar tarefas simples. Também pode ser usada por profissionais,
em situações específicas, com critério e supervisão.
Isso é diferente de substituir um psicólogo. A terapia com IA não deve
ser tratada como tratamento principal, diagnóstico ou solução para sofrimento
psíquico. Em abordagens estruturadas, como a terapia
cognitivo-comportamental, há método, avaliação e acompanhamento. Não se trata apenas de receber
respostas automáticas.
POR QUE PROCURAR UM PSICÓLOGO CONTINUA SENDO ESSENCIAL?
Procurar um psicólogo continua sendo essencial porque o sofrimento
emocional exige escuta individualizada, cuidado ético e avaliação responsável.
O acompanhamento ajuda a reconhecer padrões, compreender emoções, avaliar
riscos e construir caminhos sem reduzir a pessoa a perguntas e respostas.
A tecnologia pode apoiar a organização de ideias, mas não substitui o encontro humano, a responsabilidade clínica e o vínculo que sustentam o processo terapêutico. Quando a terapia com IA deixa de ser um recurso pontual e passa a ocupar o lugar de cuidado emocional principal, vale aprofundar a leitura sobre quando procurar um psicólogo e entender quais sinais indicam a necessidade de apoio profissional.