Passar a vida inteira sentindo que você funciona de um
jeito diferente dos outros pode ser exaustivo. Muitas pessoas crescem adaptando
seus comportamentos, mascarando desconfortos e tentando, a todo custo, se
encaixar em moldes sociais que não lhes pertencem. Até que, finalmente,
encontram uma resposta clínica e fundamentada.
Receber a confirmação de TEA em adultos traz um misto
imenso de sensações. É uma verdadeira quebra de paradigmas.
Para falar desse assunto com a devida propriedade, a
Unimed Campinas entrevistou a psicóloga Tatiana Thomaz Moreira Bitteler,
especialista em saúde e educação. O objetivo é lançar luz sobre as dúvidas mais
comuns e ajudar você a acolher essa nova fase de forma mais gentil.
ENTENDA O TEA E COMO ELE SE MANIFESTA EM ADULTOS
O Transtorno do Espectro Autista é, essencialmente,
uma condição do neurodesenvolvimento que acompanha o indivíduo desde a
infância. A grande questão é que, na imensa maioria das vezes, ele passa
totalmente despercebido durante os primeiros anos de vida.
Isso acontece porque os sinais podem ser sutis e,
muitas vezes, mal interpretadas. Pessoas que apresentam um bom desempenho
cognitivo acabam criando estratégias próprias de compensação social para lidar
com as exigências do mundo afora. Assim, o transtorno do espectro autista na vida adulta se revela muito menos por estereótipos
clássicos e muito mais por episódios de sobrecarga sensorial e fadiga social
profunda.
O QUE SIGNIFICA RECEBER UM DIAGNÓSTICO DE TEA NA VIDA ADULTA E POR QUE ISSO TEM SIDO CADA VEZ MAIS COMUM?
Confirmar o TEA em adultos significa abrir uma porta
para compreender toda a sua trajetória sob uma ótica totalmente nova.
Relacionamentos amorosos, amizades, experiências na escola e até mesmo no
ambiente de trabalho ganham novos contornos e explicações lógicas.
Mas por que os laudos tardios explodiram recentemente?
O aumento ocorre, principalmente, pela maior disseminação de informação e
pela ampliação contínua dos critérios diagnósticos ao longo dos anos. Além
disso, hoje temos profissionais muito mais capacitados para reconhecer perfis
que antes ficavam de fora dos radares médicos. Mulheres e pessoas com
apresentações menos óbvias, por exemplo, hoje conseguem obter um diagnóstico de
autismo com muito mais precisão.
ENTENDA OS SENTIMENTOS QUE COSTUMAM SURGIR APÓS UM DIAGNÓSTICO DE TEA EM ADULTOS
É extremamente comum que esse momento traga à tona
sentimentos ambivalentes. Por um lado, muitos pacientes relatam um alívio
gigante. É o instante exato em que a pessoa percebe que todas as suas lutas
passadas não eram, de forma alguma, uma falha pessoal.
Por outro lado, você pode bater de frente com um
turbilhão de emoções negativas. Podem surgir sentimentos de confusão, tristeza profunda ou luto. Isso
ocorre principalmente quando o indivíduo revisita experiências passadas de
incompreensão, episódios de bullying, impasses profissionais ou sofrimento
psíquico.
É fundamental entender que esse luto não é pela
condição neurodivergente em si, mas sim pela narrativa de vida construída sem o
devido suporte. Alguns sentem até mesmo raiva e frustração pela demora na
descoberta.
DE QUE FORMA O DIAGNÓSTICO DE TEA EM ADULTOS PODE AJUDAR A RESSIGNIFICAR EXPERIÊNCIAS ANTERIORES?
O laudo médico atua como uma verdadeira chave
explicativa para o seu passado. Sabe aquele antigo rótulo de excesso de
sensibilidade, rigidez extrema ou simples falta de habilidade social? Agora,
tudo isso passa a ser compreendido pelo que realmente é: características
naturais e esperadas de um funcionamento atípico.
A identificação do TEA em adultos torna essa
ressignificação poderosa. Ela diminui drasticamente o peso da culpa crônica,
reduz o sentimento de inadequação e abre espaço para a autocompaixão. O
indivíduo abandona a ideia de ser defeituoso e passa, de fato, a acolher seu
modo singular de processar interações sociais e estímulos sensoriais diários.
COMO LIDAR EMOCIONALMENTE COM A SENSAÇÃO DE TER VIVIDO SEM SABER?
Olhar para trás e pensar no que poderia ter sido
diferente exige uma profunda elaboração emocional. É absolutamente válido e
necessário sentir essa perda simbólica. Reconhecer que, se houvesse suporte
antes, diversas dores teriam sido minimizadas.
Na prática, lidar com o TEA em adultos envolve virar a
chave da perspectiva. A pergunta central deixa de ser sobre como o passado
teria sido e passa a ser focada em como você pode viver de forma mais alinhada
às suas necessidades a partir de agora. O trabalho clínico foca em alguns
pilares essenciais:
●
reconhecimento da
própria trajetória de superação;
●
exercícios
diários de autocompaixão;
●
reorganização da
narrativa pessoal;
●
foco irrestrito
nas possibilidades presentes e futuras.
QUAIS SÃO OS DESAFIOS EMOCIONAIS MAIS FREQUENTES ENTRE ADULTOS QUE RECEBERAM O DIAGNÓSTICO DE TEA?
A jornada até a descoberta costuma ser árdua e cheia
de obstáculos. Inúmeras pessoas passam anos tratando apenas condições
associadas, sem que ninguém identifique a causa raiz das suas questões. O peso
de carregar essas dificuldades por décadas afeta a autoimagem e cria baixa autoestima.
Entre os desafios emocionais mais presentes em quem
recebe a notícia de TEA em adultos, destacam-se:
●
histórico
prolongado de depressão;
●
altos níveis de
ansiedade social;
●
dificuldade
imensa em estabelecer limites claros;
●
sentimento
crônico de inadequação;
●
traumas relacionais
ou enraizados no ambiente escolar.
Entender as raízes exatas desses desafios é o primeiro
passo para construir relações mais saudáveis consigo mesmo e com o mundo ao
redor.
COMO TRABALHAR AS QUESTÕES EMOCIONAIS RELACIONADAS AO DIAGNÓSTICO DE TEA EM ADULTOS?
A descoberta causa um impacto importante na
autoimagem, provocando uma intensa reconstrução identitária. A pessoa
frequentemente passa por um longo período de autoanálise, reavaliando todas as
suas memórias sob a lente de quem agora sabe que tem TEA em adultos.
Compreender o quadro ajuda a enxergar a condição não
como um defeito, mas como uma variação neurológica. O processo terapêutico
trabalha ativamente com a psicoeducação e o fortalecimento da identidade
para além do diagnóstico.
Outro ponto delicado é a decisão de contar para as
pessoas. Revelar a condição não é uma obrigação. Essa escolha deve considerar a
sua segurança emocional, o nível de confiança na relação e o contexto
corporativo. Quando o indivíduo escolhe compartilhar, o foco principal não deve
ser o rótulo médico, mas sim as necessidades práticas de convivência.
ENTENDA O PAPEL DA PSICOTERAPIA APÓS O DIAGNÓSTICO.
A condição pode trazer algumas limitações para o
indivíduo, mas não por completo. Quando bem elaborado, o diagnóstico de TEA em
adultos pode orientar a vida e trazer clareza para as adaptações necessárias.
A terapia é um espaço seguro e fundamental nesse
processo de descoberta para ajudar a acolher e estruturar a nova realidade.
Durante as sessões, o profissional guia o paciente
para trabalhar a identidade e desenvolver as habilidades socioemocionais
necessárias. A psicoterapia também desempenha um papel chave na organização
estruturada da rotina e na autorregulação, ajudando a adaptar os ambientes
físicos para respeitar suas especificidades cognitivas e sensoriais.
Se você está atravessando o momento de assimilar um diagnóstico e tudo o que ele traz, não hesite em buscar apoio especializado. Convidamos você a ler o nosso artigo sobre quando procurar psicólogo e dar esse primeiro passo em direção ao acolhimento.